sábado, 24 de junho de 2017

Sábado Nostálgico

Era o dia perfeito. Nuvens pesadas cobriam o céu da cidade e espremiam aquela chuva preguiçosa de final de semana. Ainda bem que era sábado.

O frio convidativo fazia com que ninguém que pudesse ficar em casa deixasse a coberta ou uma gostosa manta de lado. Entre o balde de pipoca, o chocolate quente e a televisão, existia quem preferisse o descanso da cama ou um amor mais quente.

Margot olhava a chuva cair pela janela, aquecida por uma blusa de lã confortável, mas nada atraente. Palavras de sua mãe.
O asfalto normalmente tinindo em dias ensolarados estava ainda mais escuro, dando a sensação de que sair de casa era uma péssima ideia. Não que ela estivesse planejando algo, afinal, era conhecida por ser caseira até em excesso.

A imagem de sua janela era realmente bela. As gotas de chuva caíam tranquilamente, como a de um banho que lavava o vidro sem muita pressa. Por estar dois andares acima da maioria das casas podia ver o horizonte e a enorme montanha histórica que ficava ao fundo.

Morava numa região que mais parecia uma cidade pequena. O comércio ficava na rua contrária e por isso o que podia ver da janela era a parte residencial com seus telhados bem moldados, quase como obras de arte.

Considerado um dia deprimente por alguns, Margot não poderia estar mais contente com aquele clima. Não que detestasse dias ensolarados com ou sem nuvens, o céu limpo também era muito lindo dali. Aliás, sua vista era privilegiada.

Entretida com a bela paisagem quase derrubou a caneca que estava em sua mão quando ouviu uma voz atrás da porta:

-Cheguei, Margot.

Respirou fundo, tentando se recuperar do susto e logo virando o rosto para observar quem abria a porta. Com um semblante tão resplandecente quanto o sol, estava um de seus melhores amigos, alguém que curiosamente tinha os mesmos gostos que ela.

-Que foi?

Seu sorriso era o tipo de coisa que poderia levar uma pessoa ao hospital. Simples e sem outras intenções por trás, quase competindo com o de uma criança.

Margot rapidamente largou a caneca em cima do raque que ficava embaixo da janela e catou o celular que tinha esquecido no braço do sofá. Checou as três mensagens que não tinha visto.

A primeira era de Davi, avisando que estava saindo da estação e logo estaria em casa.
A segunda também era de Davi, perguntando se ela queria algo da rua.
A terceira, do mesmo remetente, avisava que estava na porta de entrada.

O rosto vermelho como um morango, as mãos no celular e o olhar no sorriso despreocupado do amigo de quase um metro e oitenta.

Davi entrou sem cerimônia, deixando a bolsa e o casaco mais pesado ali perto da porta.

-Devia estar ocupada com algo realmente interessante para ignorar as minhas mensagens, não?

Se o constrangimento da moça ainda não parecia visível o bastante, naquele momento atingiu o ápice da “vergonha alheia”, como se tivesse saído na rua com uma melancia em cima da cabeça e uma roupa colorida demais.

-Estava no silencioso. – disse finalmente, escolhendo por deixar o celular com a tela virada para baixo, exatamente onde tinha o encontrado – Desculpa.

O rapaz deu risada e foi se sentar no sofá. Parecia um tanto cansado, já que cruzou os braços e procurou algum conforto no móvel, quase como se quisesse ser acolhido. Seus olhos se fecharam e sua respiração ficou mais tranquila.

-Você poderia ter ficado na sua casa. – comentou Margot – Eu sei que vir para cá demanda muito tempo e você não é desocupado como eu.

Essas palavras fizeram com que Davi abrisse os olhos surpreso, enquanto a amiga franzia o cenho preocupada.
Novamente sorrindo, o jovem mostrou um semblante bem mais suave.

-Não me importo com o tempo que passo no trem ou na estação, e muito menos com os problemas que tenho que resolver depois que voltar para casa.

Lembrou-se de como ele sempre foi solícito e gentil, do tipo que não media esforços para ajudá-la no que fosse preciso. Apesar de soar como um cavaleiro galante nos olhos das outras pessoas, nunca foi o protagonista de cenas que pediam um personagem coadjuvante.

-Ei, Mar. Lembra que a gente se conheceu num dia igual a este? – indagou observando a janela, que agora recebia mais gotas, sinal de que a leve garoa voltava a se tornar chuva.

-Lembro. – ela pegou a caneca do raque e foi se sentar na ponta do sofá, perto do celular – Quantos anos você tinha mesmo?

-Acho que dez. – respondeu – Foi a primeira vez que eu andei de mãos dadas com alguém que não fosse da minha família.

Margot sorriu. A cena ainda parecia hilária em sua cabeça.
Duas crianças andando pelas ruas, uma delas perdida e a outra se sentindo na responsabilidade de levá-la até o posto policial. Era simplesmente uma gracinha, aliás, duas.

Tinha se mudado há pouco tempo, então as ruas ainda não eram muito familiares, além de não conseguir pegar muitos pontos de referência que fossem singulares. Quase toda esquina tinha um espelho circular que permitia uma melhor visão antes de conversões e que serviam também como item de segurança; dava para ver se tinha mais alguém por perto.

Saiu da casa de uma amiguinha crente que sabia o caminho da sua. Queria fazer uma surpresa aos pais chegando sozinha e se mostrando independente. Deveria ser um retorno tranquilo se a primeira rua à direita não tivesse virado um labirinto.

Depois de cinco minutos andando sem encontrar o caminho para a sua casa ou a da amiga, Margot se encolheu num cantinho e começou a chorar.

Naquele horário, dia e com ameaça de chuva mais forte ninguém estava na rua.
Pensou que a noite chegaria e todas as piores possibilidades poderiam acontecer.
Foi quando sentiu um cutucão no braço e apavorada, com seu rostinho lavado de lágrimas, ela viu o que era. Ou melhor, quem.

Um menino aparentemente mais velho e mais alto a olhava preocupado.

-Você está perdida? – perguntou alarmado.

Balançando a cabeça de cima para baixo e a ponto de chorar novamente, Margot o viu estender a mão para ajudá-la a se levantar.

-Vem, eu vou te levar no posto policial aqui perto. Aí fica mais fácil para os seus pais te encontrarem. – falou seguro.

Foi quando reparou que na outra mão o garoto segurava uma sacola, sinal de que tinha saído sozinho para comprar algo provavelmente a pedido dos pais. Invejou a independência daquele menino que ela ainda não sabia o nome.

Seguiu com ele por uma rua mais larga, sempre ouvindo que tudo ficaria bem e que logo estaria em casa tomando um chocolate quente. Com um lencinho que carregava no casaco, secou as lágrimas da pequena e tentou animá-la de todo jeito possível.

Quando chegaram no posto policial, o menino finalmente se apresentou.

-Eu sou Davi, moro a algumas quadras daqui. Espero não te encontrar de novo perdida... Hum?
-Margot. – ela disse.
-Margot. – Davi repetiu sorrindo – Até mais.

Quando fez menção de ir embora, a menina o agarrou com força na cintura e não o deixou sair.
Mesmo que os policiais tentassem reverter a situação, explicassem que agora estava tudo bem, Margot não o soltou, deixando o menino sem escolha.

-Desculpa... – ela disse quando se sentaram nas cadeiras.
-Tudo bem. – fez carinho na cabeça dela, como se cuidasse de uma irmãzinha – Logo, logo, seus pais chegam.

Demorou um pouco mais de vinte minutos até que um casal aparecesse apavorado no posto e abraçasse a filha, sentindo o desespero esvair junto com algumas lágrimas.

Depois de conversarem com os policiais e com o “salvador” de sua pequena, os pais de Margot ainda deram uma carona ao menino, que acabou deixando a família um tanto preocupada com sua demora.

Assim as duas famílias se tornaram amigas.
Davi com seus dez anos e Margot com oito.

Voltando ao presente, o Davi de vinte e cinco anos encarava a Margot de vinte e três ainda abatida pelos acontecimentos daquela semana. Ele não estava ali para uma simples visita e tampouco mostrou importância com a distância que viviam atualmente, sempre que um precisou do outro eles se apoiaram e naquele momento a moça precisava de um ombro amigo, quase irmão.

-Eu falei com a tia lá embaixo e ela me contou o que aconteceu. – o rapaz se adiantou – Desculpe por eu não ter podido vir antes... Eu queria ter te acompanhado no funeral do seu pai.

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Olá.
Tudo bem?

Este blog tem se resumido a polêmicas e Bienal do Livro, então resolvi trazer um conto que vai cair na categoria Diversos.

Sim, até 2018 sai o terceiro dia da Bienal de 2016 mais as palestras.
Aparentemente tive a capacidade de perder (na verdade, "esquecer onde coloquei") o caderno em que anotei o conteúdo das palestras, então... Vamos chorar de forma comedida.

Talvez haja uma segunda ou mais partes deste conto. Quando isso acontecer eu aviso no Twitter, prometo.

Faz tempo que não escrevo um conto... Tenho vontade de tornar isso mais rotineiro.

Até mais!

Por Kimono Vermelho (24/06/2017)

4 comentários:

  1. Que texto pessoal, dá pra sentir toda a carga. Obrigado por compartilhar.

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    Respostas
    1. Olá, Magi!
      Hum... Não tem nada de pessoal neste texto.
      Acho que você veio comentar no post errado.

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