segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Bienal do Livro 2016 - "A presença do feminino na literatura"

A impressão que fica é que as cadeiras dos palestrantes eram mais confortáveis que as nossas.
Depois de uma semana doente e ainda não muito boa, trago para vocês a segunda palestra que assisti dia 29/08/2016, meu primeiro dia na Bienal.

Que os fãs das escritoras não fiquem muito ofendidos, mas eu fui pelo tema.

Que dia puxado...
Depois de sair encantada da palestra "Ficção e realidade na literatura policial", esperei mais duas horas para assistir "A presença do feminino na literatura".

Nesse meio tempo, eu e a Assistente do Blog Para Eventos resolvemos fazer uma boquinha, já que estávamos por lá desde as duas, três e pouco da tarde.
Mesmo com um food truck de churros e uma... food motoca(?) de docinhos, fomos passear pela área dos salgados.

Como a ABPE não gosta de hambúrguer, caímos no espaço do pastel.
A piada é que somos praticamente vizinhas de uma barraca de pastel, então fomos lá provar da "concorrência".

Ela comeu um de carne e eu fui no de pizza, o refrigerante nós dividimos.

Depois de buchinhos devidamente forrados, fizemos o caminho de volta para o Salão de Ideias, me baseando no mapa que imprimi um dia antes.

A coisa mais engraçada disso é que o Anhembi virou TÃO A MINHA CASA, que nos dias posteriores deixei o mapa fechado dentro da bolsa.

Cada edição que passa eu fico mais abusada.

Fora de casa até a novela das nove?
Quando deu sete e meia fomos buscar nossos ingressos e ficamos sentadas no estande do Submarino que tinha uns pufes azuis. Abraços, Submarino e seus funcionários bacanas que não fizeram cara feia para duas mulheres cansadas.

Dez minutos antes da palestra estávamos lá batendo um papo com as organizadoras do Salão de Ideias.

Um dos detalhes mais legais desses meus dias de heresia por lá foi que escolhi assuntos tão tranquilos, que a sala não encheu ou fiquei sem ingresso.

A palestra "A presença do feminino na literatura" contou com os seguintes nomes:
-Adriana Carranca;
-Ivana Arruda Leite;
-Nadia Gotlib.

No site da Bienal do Livro tinha o nome de Margareth Rago, no entanto, ela não participou. Também não sei o motivo.

Lembrando que esse mesmo site foi o ajudante maroto do destino que acabou me metendo em palestras surpreendentes e divertidas.

Bem...
Não sei se dá para incluir essa.

Revelando absurdos
Da esquerda para a direita: Ivana Arruda Leite, Adriana Carranca e Nadia Gotlib.
Gostaria, antes de tudo, de explicar que ESTA NÃO É UMA TRANSCRIÇÃO LITERAL, COM PONTO POR PONTO, VÍRGULA POR VÍRGULA, DA PALESTRA, pois as pessoas falam muito rápido, eu escrevo com uma mão só e tentei pegar o máximo de informações possíveis DURANTE A PALESTRA escrevendo à mão.

Antes de entrarmos no assunto discutido, vou apresentar as participantes:

-Ivana Arruda Leite: paulista, mestre em Sociologia pela USP e escritora. Obras: 17 livros, entre eles alguns infantis e outros juvenis, além de e-books. Participou de 37 antologias entre nacionais e internacionais. A lista completa é enorme e pode ser conferida no blog dela, o link está na parte "Fontes".

-Adriana Carranca: jornalista (cobertura de conflitos/guerras). Obras: "Os Endereços Curiosos de Nova York", "O Irã sob o Chador", "O Afeganistão Depois do Talibã" e "Malala, a menina que queria ir para a escola". E dois artigos para livros: "Paralelo 10 - A linha geográfica e ideológica que divide o mundo cristão do islâmico" de Eliza Griswold (posfácio da edição em português) e " Políticas públicas sociais e os desafios para o jornalismo" de Guilherme Cortez Canela (capítulo "Dar voz à diversidade").


-Nadia Gotlib: paulista e escritora. Obras: "Luís Vaz de Camões" - Literatura Comentada", "Clarice - Uma vida que se conta", "Tarsila do Amaral: A Modernista", "O Estrangeiro Definitivo: Poesia e Crítica em Adolfo Casais Monteiro" e "Clarice Fotobiografia". As informações da Nadia foram mais difíceis de encontrar, então se tiver algum erro aprecio a ajuda do leitor.

A palestra não contou com mediador, o que talvez pudesse ter evitado alguns "problemas", como apresentações muito longas, no caso de Adriana Carranca. Ela realmente acabou se empolgando ao falar de suas coberturas de guerras e do contato com a cultura muçulmana. Depois disso o tema começou a ser discutido.

Ivana Leite contou que não gostava de literatura feminina, apesar de conhecer. Não gostava de se incluir nesse tipo de literatura, pois ele ficava ao lado da estante de culinária. Sabe o "lugar de mulher é na cozinha"? Então...

Disse que tiveram que lutar muito para conseguir um espaço mais igualitário e que atualmente as coisas estão mudando. Não aceita ser considerada uma escritora de segunda classe por ser mulher e acabou falando um pouco sobre suas protagonistas, mulheres que ela imaginava que se tornaria, do tipo forte e com bom humor, fugindo um pouco dos padrões mais atuais.

Nadia Gotlib disse que há tradição masculina na literatura e que histórias escritas por mulheres vieram de forma tardia. No Brasil colônia, quando chegava visita, elas se escondiam, nada de ficar na sala. O absurdo prossegue quando a escritora nos conta que até teatro e música eram proibidos para as mulheres, já que poderiam torná-las revolucionárias e inflamadas no amor.

Em 1982 começou o movimento das mulheres na literatura, uma das figuras dessa época foi Zahidé Muzart, fundadora da Editora Mulheres. Publicou três volumes grossos sobre escritoras brasileiras do século XIX.

Nadia chegou a comentar da perseguição que a poetisa Francisca Júlia sofreu do modernista Mário de Andrade, só porque ela escrevia num estilo anterior ao movimento.

Com o passar do tempo as mulheres foram transpassando a tradição, trazendo até mesmo romances mais picantes e palavras eróticas.

Nadia, que é uma estudiosa de Clarice Lispector, falou que a escritora trouxe essa construção da mulher conhecendo a si mesma, e não indo apenas atrás de um relacionamento, como era o caso da maioria na época.

Prontos para a heresia?
Nadia fez vários comentários sobre Clarice e suas obras, no entanto, como não li nada de Clarice acabei perdendo algumas referências.

Não taquem pedras, eu sei que ela foi uma mulher de extrema importância na literatura mundial e na literatura feminina. Sigam a leitura ou sejam felizes fora daqui.

Adriana Carranca nos trouxe algumas curiosidades do mundo muçulmano e sua relação com a literatura feminina. O começo desse gênero por lá foi com os grupos secretos de poetisas que ganharam ares de hobbies domésticos, como cozinha e costura, para driblar a censura masculina. Elas liam e escreviam poesias.

Adriana ainda nos contou que muitas escritoras muçulmanas que migraram para o ocidente, longe da censura, puderam ser conhecidas. Além disso, a internet é uma ferramenta importante nessa literatura feminina, principalmente na Síria. É uma forma de expressão dentro do mundo fechado onde vivem e aos poucos estamos descobrindo a literatura feminina muçulmana.

O mistério chamado "mulheres escritoras"
As perguntas foram abertas ao público e a primeira delas foi sobre o que é a literatura feminina.

Como categorizar esse gênero?
A pessoa que fez a pergunta citou um exemplo: seria literatura feminina se uma escritora contemporânea fizesse um romance com protagonista homem ou um escritor com romance protagonizado por uma mulher.

Ivana respondeu que é o escritor que define, ou seja, literatura produzida por mulher é literatura feminina.

Nadia disse que o feminino pode ser confundido com sentimentalismo piegas e contou que Clarice Lispector ironizava isso e transitava por vários gêneros, saindo desses rótulos.

E comenta que é complicado definir, pois existem "vários sexos" atualmente.

Ivana Leite ainda nos contou que antigamente quando vinham elogiá-la pela escrita forte, diziam que ela escrevia como homem.

Do público surgiu mais uma pergunta, daquelas que me fez lembrar como ainda convivemos com o retrógrado, pois aquele tipo de pensamento não consegue mais acompanhar a movimentação frenética do mundo.

Basicamente ele perguntou sobre a influência da literatura feminina na compreensão masculina. Citou o sentimentalismo das mulheres e até mesmo a divisão do cérebro (que um lado é mais feminino e o outro é masculino).

Ivana disse que a literatura serve para isso, para trazer o entendimento, servindo a homens e mulheres. Discordou do estereotipo comentado na pergunta e falou o óbvio: existem também mulheres mais racionais e homens mais sentimentais.

O público questionou sobre o papel da mídia, da crítica, na literatura feminina e falou sobre o caso de Gilka Machado. Achavam que era o marido que escrevia em seu lugar, o que se provou uma mentira quando ele morreu e as obras continuaram sendo publicadas por Gilka.

Nadia Gotlib comentou sobre um crítico que defendia a autora e que costumava dizer que a Gilka mãe, mulher, não tinha nada a ver com a poetisa. Existia muito preconceito, uma dificuldade de aceitar o que as mulheres escreviam, e por isso eles separavam a figura feminina da figura da escritora.

E isso infelizmente continua existindo.

Para um exemplo de fácil assimilação, é só pensar nessa frase batida que todo mundo já escutou alguma vez na vida: "Existe mulher para casar e mulher para se divertir". Implicando que aquela mais solta, sexualmente ativa, não servia como esposa.

Adriana Carranca falou do estereotipo e preconceito de que a mulher não pode ter várias facetas. Ainda nos contou que foi questionada várias vezes sobre "como era ser uma mulher cobrindo guerra".

Ela nunca sabia responder, pois se sentia apenas uma repórter cobrindo um conflito. Acha estranha essa rotulação, pois para ela literatura é literatura.

Ivana aproveitou para nos contar que nunca tinha participado de uma mesa com homens para falar sobre literatura feminina.

O centro de São Paulo à noite não é convidativo
Depois disso precisei sair, pois a carona que nos levaria de volta para casa já estava ligando e passavam das nove horas da noite.

Eu e a ABPE saímos do Salão de Ideias, nos despedimos das organizadoras do espaço e fomos apressadas para a saída, com grande ajuda do meu mapinha.

Naquele horário o Anhembi estava uma delícia, bem mais tranquilo.
Um pouco mais de meia hora e a Bienal fecharia.

Só sei que chegamos no final da novela das nove bastante cansadas, jantamos e eu tirei as fotos do celular dela e passei para o computador.

Ainda bem que escolhi não ir na terça feira, foi ótimo descansar.

Fontes: Doidivana (Ivana Arruda Leite) - Adriana Carranca (blog) - Nadia Battella Gotlib (Facebook) - Estante Virtual (Nadia Battella Gotlib) - Fotos tiradas por mim na Bienal do Livro SP - 2016

Por Kimono Vermelho (19/09/2016)

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