segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Bienal do Livro 2016 - “Ficção e realidade na literatura policial brasileira”

Na esquerda da imagem o jornalista e mediador Rogério Pereira. Do lado direito Santiago Nazarian, um dos escritores convidados para falar sobre o tema.
Enfim vocês conhecerão a Saga da Herege no Salão de Ideias!
Uma coleção de contos posts sobre as palestras bacanas e interessante que acompanhei nesses meus três dias de Bienal do Livro.

Espero que nenhum fã dos escritores que aparecerão nos próximos textos fique muito possesso comigo. Eu fui lá pelo tema.

O início dos plot twists
Como a primeira palestra começaria apenas no final da tarde, saí depois do almoço, curtindo um bom sono na parte da manhã.

A minha sorte foi que botei na cabeça que deveria ser mais pontual do que britânico, então saí umas boas horas antes garantindo um sossego para minha ansiedade e bons lugares nas palestras.

A Avenida do Estado estava truncada como sempre. Ela e a Rodovia Anchieta (dentro da cidade de São Paulo) poderiam dar as mãos, já que não sabem o que é "trânsito livre". O incrível foi chegar num Anhembi sem tantos carros e um sol gostoso, perdido no inverno do Hemisfério Sul.

Gostaria de reforçar a minha alegria por não precisar circundar o local e entrar pelo Hotel Holiday Inn. Sério, que desgraça deu na cabeça dos organizadores em 2014? Enfim, esse seria o primeiro dia da Bienal.

2016 - Um ano ruim para o país, mas ótimo para a Bienal
Meia hora antes da palestra, a distribuição de senhas começou.Precisaríamos ficar de olho apenas no horário de entrada, dez minutos antes, para pegar bons lugares.
Além de tirar foto, eu precisava escutar e anotar o que seria dito.

Sofri um pouco nesse primeiro dia e não falo pelos meus garranchos psicografados, os pulsos são quem ditaram a dor: um que segurava o caderno e outro que escrevia. Foi realmente louco.

Nesta edição o Salão de Ideias estava com um visual mais limpo.

As cadeiras eram desconfortáveis para gordos, em compensação tinha ar-condicionado, carpete forrando o chão e a arte temática da Bienal como fundo da mesa palestrante. (E invisível. Mesa ali só para colocar os microfones e copos de água com lacres difíceis de abrir)

A palestra "Ficção e realidade na literatura policial brasileira" contou com os seguintes nomes:
-Raphael Montes;
-Santiago Nazarian;
-E Rogério Pereira (mediador).

O site da Bienal do Livro foi um dos ajudantes marotos do destino que me sacaneou gostoso. Ao contrário da edição passada, não contávamos com nada além do tema e dos palestrantes. Sinopse? Talvez muito trabalho...

Então levada apenas pelo que tinha, confesso que caí em algumas armadilhas divertidas com ótimas lições para escritores novatos.

Sherlock Holmes tupiniquim?
Da esquerda para a direita: Raphael Montes, Rogério Pereira e Santiago Nazarian.
Antes de entrarmos no assunto da palestra, vamos apresentar os participantes:

-Raphael Montes: carioca, advogado e escritor. Obras: "Suicidas", "Dias Perfeitos" e "O Vilarejo". Colaborador nos roteiros de A Regra do Jogo (Globo) e Supermax (Globo).

-Rogério Pereira: curitibano, jornalista e escritor. Obra: "Na escuridão, amanhã". Fundador do Jornal Rascunho.

-Santiago Nazarian: paulista e escritor. Obras: "Olívio", "A Morte Sem Nome", "Feriado de Mim Mesmo", "Mastigando Humanos", "O Prédio, O Tédio e o Menino Cego", "Pornofantasma", "Garotos Malditos" e "Biofobia".

Gostaria, antes de tudo, de explicar que ESTA NÃO É UMA TRANSCRIÇÃO LITERAL, COM PONTO POR PONTO, VÍRGULA POR VÍRGULA, DA PALESTRA, pois as pessoas falam muito rápido, eu escrevo com uma mão só e tentei pegar o máximo de informações possíveis DURANTE UMA HORA escrevendo à mão.

"Poxa, projeto 'vamos arranjar um gravador em 2018', Kimono?" - Opa, COM CERTEZA! COMPRE UM PRA MIM, LEITOR, E ME ENVIE. Pretendo, mas isso vai depender de MUITOS fatores.

Enfim...
O trabalho do mediador é apresentar questões que serão comentadas pelos convidados, trabalhando o tema, e por fim liberar as perguntas do público.

Depois da apresentação, Rogério questionou os dois sobre o espaço da literatura policial no Brasil.

Raphael comentou sobre seu interesse por literatura com 11~12 anos, citando alguns nomes como Agatha Christie e outros clássicos dos romances policiais. a quantidade de nomes brasileiros nessa área mostrava que não existia tradição em solo tupiniquim.

Por que a literatura policial britânica funciona? Porque existe uma ordem, regras muito firmes e bem estabelecidas, que dentro do romance são quebradas por um crime, uma desordem, que deve ser restabelecida pelo detetive, aquele que soluciona o mistério.

Já o Brasil é caótico, não tem um sistema firme de leis e ordem, além de possuir uma formação tardia de urbanidade.
Sem esquecer que o país tratava a literatura policial como algo menor, sendo apenas um entretenimento.

A boa notícia é que atualmente o gênero tem se firmado.

Nazarian destaca a segregação de alguns gêneros literários como fantasia e terror, lembrando que o Brasil também não tem tradição nessas áreas, consideradas mais juvenis, sendo muito calcado no realismo. Principalmente o gênero de terror que tem poucos escritores.

Santiago Nazarian acredita que falta livros para os adultos, algo mais cabeça, e que vê normalmente histórias focadas para o público juvenil. Entre os nomes comentados o único que meu pulso conseguiu pegar e não esquecer, foi André Vianco. Perdão pelo vacilo.

Também comentou sobre os filmes de terror brasileiros, que são menos conhecidos, e nos contou que o colega de mesa, Raphael Montes, estava participando da equipe que fez roteiro da série Supermax, que estreia agora no meio de setembro na Globo.

Vi uma ou outra chamada na televisão antes de me aventurar pela Bienal do Livro e cogitava não assistir, pois a sinopse não tinha me ganhado. Porém, depois de cutucar alegremente a Assistente do Blog Para Eventos, a ABPE, durante a palestra, tive vontade de prestigiar...

Aí a blogueira lesada e com cérebro falhando lembrou que tinha terror no meio dessa bagaça. Ha-ha-ha.

Bom, Raphael, vai ficar para uma próxima, senão eu não conseguirei dormir NUNCA MAIS. #medrosa #cagona

E o citado aproveitou para encaixar uma informação, dizendo que o Zé do Caixão, nome icônico do terror brasileiro, é adorado nos Estados Unidos.

Uma nova pista no mistério
E um dos assuntos mais recorrentes nas palestras que acompanhei foi o jovem.

Raphael disse que os jovens leitores e escritores estão mudando o cenário da literatura atual brasileira.

Santiago contou que a primeira matéria que saiu sobre ele, na época de seus primeiro livros, falava que o autor era um jovem tatuado e de piercing. Algo provavelmente muito chocante para uma mídia conservadora de leitores igualmente conservadores.

Sei lá, isso soa patético aos meus ouvidos.

Nazarian prosseguiu dizendo que a geração 2000 foi beneficiada com a internet, os blogs e as autopublicações, que não dependiam das grandes editoras. Qualquer um podia ser lido.

Ele e Raphael Montes ainda comentaram sobre os Booktubers, Youtubers que fazem resenhas de livros. O último disse que é bem mais interessante hoje em dia ser resenhado por um Booktuber do que por um crítico de algum jornal de grande circulação.

E o que também ajuda os autores são as indicações, o boca-a-boca, o compartilhamento na internet.

Então já sabe, né? Curtiu aquele livro de um autor brasileiro que não é muito conhecido? Bora fazer propaganda e indicar para os amigos, afinal, de glamour a vida de um escritor não tem nada. Pelo menos não aqui em solo tupiniquim. Para chegar nesse patamar tem que ralar muito e depender de muitas outras condições.

Raphael também falou que a cada edição a Bienal do Livro muda as obras em destaque, indicando que nada dura para sempre. E sobre o mercado editorial, disse que existe oportunidade para os escritores novos quando as editoras publicam obras de nomes mais famosos. Com o aumento de renda que esses títulos arrecadam, abre a possibilidade para publicação de nomes menos conhecidos e de outros tipos de leitura.


Com grandes obras há formação de novos leitores. 

Santiago reforça o que disse o colega de mesa e ainda inclui um comentário: os livros de Youtubers são souvenirs dos Canais. Particularmente não sei se consigo incluir esse tipo de livro como "literatura" e concordo com os dois, acho que é um item interessante, um mimo, de quem acompanha os trabalhos dessas pessoas.

Escritores e seu modus operandi
Rogério Pereira então pergunta qual o propósito deles como escritores e como leitores.

Raphael comenta sobre a qualidade dos livros, as aspirações dos escritores em serem bons no que fazem, além da busca pela evolução na escrita. 
Não é porque o leitor considera um escritor bom que ele é bom.

Acredito que o caminho mais fácil para a morte de um autor é ficar estagnado, satisfeito com o que tem feito. É preciso se desafiar, desconfiar e procurar melhorar.

Ele gosta de pessoas que fazem o mesmo que ele, escrevem sobre o mesmo assunto. Como escritor Raphael busca contar uma boa história, que tenha questões e reflexões para os leitores pensarem. E ainda diz que gosta de escrever sobre assuntos que lhe interessam.

Ressalta ainda o preconceito de que o popular é ruim e que uma literatura "mais cabeça" não é popular. Ele discorda dessa opinião. 

Já Nazarian conta que se encanta com autores que não fazem o mesmo que ele, dando vontade de contar essas histórias, só que na "sua versão".

É mais ou menos isso que fez com que eu quisesse entrar nesse mundo da escrita. Os livros que li, mesmo gostando, não conseguiam minha empatia completa. Sempre achava que algumas partes poderiam ser contadas de outra forma e assim caí naquela coisa macabra e mágica chamada fanfic.

Depois, cansada de escrever sobre as histórias e personagens dos outros, resolvi criar meu próprio universo com suas criaturas adoráveis e terríveis. "Só falta publicar", é o que todos dizem.

"Kimono, preferia que você não fizesse comentários pessoais, só queremos a palestra" - Kimono sugere que vocês parem de perder tempo na vida e assistam as palestras nas próximas bienais. E, claro, procurem blogs mais sérios e que tenham um número maior de visualizações. #ficadicona

Santiago falou que lê obras diferentes e vai agregando o que acha interessante em sua escrita.
Para construir seu estilo cada escritor vai bebendo de várias fontes para encontrar o "seu jeito".

Ele também disse que tem vontade de experimentar outros estilos e que gosta de sair da sua zona de conforto.

Rogério perguntou aos dois quais eram os desafios de ser escritor.
E foi aí que eu quis levantar da cadeira e dar um abraço bem forte nesses rapazes.

Raphael disse que um livro popular não é escrito pensando no que o leitor gostaria de ler, isso é um mito, é uma pretensão exagerada. Ele, por exemplo, escreve o que ele mesmo gostaria de ler.

Essa é uma das coisas que a maioria dos escritores iniciantes já ouviu em algum momento: escrever o que os outros gostariam de ler.

Seria realmente lindo se existisse um manual que ensinasse as pessoas a se tornarem best-sellers. E concordo quando Raphael diz que isso é uma pretensão.

Quem é que sabe do que todos gostam? Vão o que, reunir em uma pesquisa os assuntos mais lidos? Montar um quebra-cabeças com tudo que é mais consumido pelos leitores? Isso seria mesmo um livro ou um projeto engraçadinho sem originalidade?

A outra coisa que a gente escuta e dói na alma é o famoso "mas você não pode escrever o que VOCÊ gostaria de ler". Vire para um doutor em matemática e peça para que ele faça um estudo sobre o folclore brasileiro baseado no cenário político atual.

Ainda que o doutor seja interessado em política ou curta folclore, é um pouco "fora da medida" pedir algo assim, não concorda?

Se o escritor não escreve o que ele gostaria de ler se fosse leitor, vai escrever por obrigação o que os outros mandam? Roteiro de projeto dos outros, no momento, não conta.

O mínimo que nós, tão rechaçados na intimidade da sociedade, merecemos é escrever com amor, vontade e doação. Porque, não se enganem, a maioria das pessoas não leva essa profissão a sério.

Acha que é coisa de vagabundo, de quem não tem o que fazer. E infelizmente ser apenas escritor não paga as contas do mês e nem enche barriga. Esses casos são exceções lindas, não regra.

Vendo mais de perto
Voltando a Raphael Montes e agora entrando na literatura policial brasileira, ele disse que o leitor quer um enigma que possa decifrar, afinal, o suspense é o que instiga quem está com o livro em mãos.

Alguns autores contemporâneos não trazem mais a identidade do assassino como o grande trunfo da história, quebrando a "tradição".

Os romances policiais continuam servindo, mesmo que um pouco, como referência histórica, já que retratam a sociedade e os costumes das pessoas daquele tempo e lugar.

Raphael conta que sente falta de tramas que retratem mais a realidade do Rio de Janeiro (ele é carioca). Quando escreve gosta de contar uma boa história, além de fazer críticas e dar alfinetadas em seus livros.


Os autores levantaram a velha questão de histórias escritas por pessoas que não passaram pelas dificuldades e privações dos personagens. Por exemplo: um homem branco escrever uma protagonista mulher e negra.

Nazarian brincou com o fato de ser de classe média, do bairro dos Jardins aqui de São Paulo, justamente não fazendo parte do núcleo mais marginalizado e sofrido. Contou que vive se sabotando e que tem a mania de não gostar do que a maioria gosta.
Se tem uma série que está na moda, ele não acompanha na hora, preferindo assistir tempos depois.

Eu faço a mesma coisa com uma pequena diferença: normalmente não assisto depois. hoho

Ele disse também que gosta de falar o que os outros não querem ouvir, mesmo achando que pega leve se comparado com outros autores undergrounds.

Acaba sofrendo um pouco com aqueles que não consideram suas obras como terror por não ser tão carregado. Também não agrada os do mundo literário, que torcem o nariz por outros motivos. Uma das reclamações veio sobre o jacaré urbano de "Mastigando Humanos".

Era um absurdo ter um monstro como personagem.

Ambos também comentaram sobre as influências dos escritores da nova geração, como séries, filmes, música, e Raphael nos contou que Santiago bebia mais da fonte dos filmes de terror do que propriamente da literatura desse gênero, informação confirmada em seguida.

Rogério Pereira trouxe mais uma questão interessante para a conversa: a confusão entre os autores e seus personagens, a autoficção, e o quanto o escritor se coloca nos livros.

Ainda há aquele sentimento engraçado de que tudo é autobiográfico.

Santiago explica que não faz esse tipo de literatura, que coloca sim algumas características, contudo, não é personagem em suas histórias.
Quando você vai contar algo que não viveu, busca referências que você tem para descrever.

Raphael diz que o escritor mexe com temas que chamam sua atenção e que podem abrir discussão, instigando o leitor a pensa sobre.

Normalmente os leitores acham que os escritores botam muito de si, mas o escritor não é sua obra.

Raphael comenta sobre seu romance "Dias Perfeitos" e da relação doentia entre os personagens principais. Se fosse para julgarmos o autor por sua obra, então teríamos um homem obcecado, que acha que tem posse de alguma mulher. Obviamente não é o caso.

O público então jogou a pergunta para Santiago Nazarian, sobre o seu livro mais recente, "Biofobia". Disseram que o texto dá impressão de ser bastante pessoal e queriam saber como ele escolheu o nome, como a história foi formada e quais as ideias que trouxe para escrevê-la.

O autor contou que passou um período depressivo na Finlândia e brincou que era logicamente o melhor lugar para "curtir" a depressão (pouco sol, muito frio, escuridão). Chegando aos quarenta anos ele teve aquela famosa crise de escritor: e agora? Para onde vou? O que mais posso produzir na minha carreira? O que tenho ainda a oferecer?

"Biofobia" foi uma reflexão depressiva que trouxe um paralelo entre a crise do autor e a história do protagonista André, um roqueiro decadente que nunca teve sucesso, se afundou nas drogas sintéticas e agora se via velho e herdeiro da casa de campo da mãe falecida. Detalhe: a parte "bio" desse "Biofobia" é que o personagem odeia mato e natureza.

Nazarian prosseguiu com bom humor, dizendo que sempre faz personagens mais ferrados que ele para se sentir melhor e pensar "poxa, olha como esse cara está mais pior do que eu". A blogueira aqui acredita que essa seja uma espécie de terapia e recomenda. Antes os personagens do que nós, né?

O autor procurou fugir da obra clichê de "crise de escritor" e disse que as únicas semelhanças entre ele e seu livro são a casa de campo e o sentimento depressivo, já que Nazarian não é um roqueiro decadente e também não se envolveu com drogas. A casa usada como referência é a que sua mãe possui.

Aliás, outra curiosidade divertida é que, assim como André, Nazarian também tem uma mãe escritora.

O público, ao contrário da blogueira, era muito bem informado sobre os palestrantes e aproveitou para fazer mais uma pergunta interessante (as ruins estarão no próximo post de palestra, vai por mim): como os autores ali se publicaram e uma reflexão sobre o preconceito com o que é do Brasil.

Raphael Montes lembrou das locadoras de fita VHS, em que a seção Nacional sempre ficava separada, meio escondida.

Se você é novo demais para saber de locadora de fita, pergunte a um adulto maior de 25 anos, ele vai saber.

Ele disse que atualmente tem mais espaço para escritores brasileiros e acabou contando sua empreitada aos dezesseis anos, quando mandou um livro para várias editoras e foi recusado em todas.

Raphael então resolveu colocar seu livro numa premiação/concurso, concorrendo com escritores mais velhos, e acabou chamando a atenção de um editor que lhe deu uma chance. E ainda nos contou que Santiago foi o primeiro a resenhar livro dele!!!

Santiago falou o que adiantei acima (que é filho de escritora), além de escrever por prazer e ler Oscar Wilde.
Achava que ninguém publicaria um jovem de 23~25 anos.

Viu no jornal sobre um concurso e resolveu participar. Os livros sairiam por uma editora pequena, mas a bancada de jurados era de gente conhecida e experiente.

Foi chamado pela Editora Planeta, que estava chegando no Brasil e queria publicar novos escritores. Seu primeiro livro e sua primeira mesa de palestra/bate-papo aconteceram em uma Feira Literária Internacional de Paraty, a FLIP, a Planeta o levou como um dos destaques.

O público perguntou que influência tinham as críticas literárias, aquelas de jornais, na escrita dos autores.

Santiago lembrou o conservadorismo da Academia de Letras que acaba sendo vencido pelo cansaço, pelo tempo e insistência. Ainda contou que chegou a entrar no curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP), mas acabou saindo.

O escritor depende de prêmios, eventos, de receber cachê para participar de palestras, que isso não é vaidade, é necessidade para pagar as contas e ficar conhecido.

E o público bastante curioso também perguntou sobre a diferença entre escrever livro e roteiro.

Raphael Montes começou nos contando que escrevia livros, porque gostava de contar histórias, tanto que nunca tinha feito curso de escrita criativa (algo que atualmente ele ministra). Quando foi chamado para escrever roteiros, ele procurou ler os de filmes, que são fáceis de encontrar na internet. Explicou que a origem da ideia é a mesma e que a partir daí as coisas tomam rumos diferentes.

Os recursos da literatura nem sempre são iguais aos do roteiro.
Citou uma cena de A Regra do Jogo quando a personagem Atena (Giovanna Antonelli) saía do apartamento e daí lembrava que tinha esquecido as chaves. Raphael comentou que há muitos elementos de imagem no roteiro e que cena não é apenas diálogo.

Ele ainda disse que não foi muito difícil fazer a transposição, já que para seus livros costumava usar um modelo parecido com o de roteiro, a escaleta.
Eu faço algo no mesmo estilo, só que chamo de "script".

Ainda comentou uma frase que escutou por aí: "Roteiro vai para a lixeira e o livro para a estante". Que esse era o destino final dos dois textos. Roteiro depois de lido pelo ator, depois de gravado, não serve para mais nada.

Santiago também falou sobre sua experiência e disse que no livro você faz do seu jeito, sozinho, enquanto num roteiro você tem normalmente mais de uma pessoa escrevendo.

"O livro é meu espaço", disse ele, ressaltando que mesmo tendo toda a criatividade e escolha do que vai fazer na história, o editor pode simplesmente recusar. A possibilidade existe.

Nazarian contou sua experiência como roteirista da série "Passionais", que mesmo sendo da Globosat, contava com pouco dinheiro para produção.

Raphael encerrou dizendo que o ritmo de escrita de um roteiro é muito mais rápido e que isso o ajudou com os livros.

O verdadeiro assassino é...
Eu sinceramente amei a palestra e agradeci Deos Matoba aos céus pela oportunidade de aprender tanto com esse pessoal que está há muito mais tempo "na estrada".

Na minha opinião, todo aspirante ou que se considera "escritor" deveria assistir pelo menos UMA PALESTRA desse tipo. É extremamente instrutivo e fantástico. Não tenho o que dizer além disso. Vou repetir até cansar.

Obviamente me senti ainda pior por estar ali e não conhecê-los.
Essa 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo pode ser definida por uma palavra só: heresia.

E eu era seguramente a herege mais feliz daquele lugar.

Fontes: Wikipedia (Raphael Montes) - Raphael Montes (Site) - Jornal Rascunho (Colunistas) - Rogério Pereira - Wikipedia (Santiago Nazarian) - Santiago Nazarian (Blog) - Fotos tiradas por mim na Bienal do Livro SP - 2016

Por Kimono Vermelho (12/09/2016)

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