quarta-feira, 31 de julho de 2013

Virgindade: De novo aquele "problema"

Eu sei, já fiz um texto falando sobre isso que foi postado há mais de dois meses, o CPM: Virgindade. EU SEI. Mas, caramba, vem a novela da Globo e trata o tema como um "problema"! Não tem como eu não ficar possessa!

Aí você pode argumentar que no post citado foi respeitado o pensamento de cada um e que eu também deveria respeitar a visão da novela. Acontece, caros leitores, que ainda hoje a novela é uma das maiores influenciadoras de comportamento no Brasil. Você pode até não assistir, mas o povo está lá dando ibope e comentando sobre.

Quando os clichês aparecem, mas não agregam...
Eu admiro bastante do Walcyr Carrasco. Ele me parece uma pessoa inteligente e talentosa.

Eu não sou noveleira e peguei um pouco de... Não diria "nojinho", pois soa imbecil e não faz jus à realidade, só que cansei da fórmula chatinha dela.
Porém, Amor à Vida, quer queira ou não, sempre será lembrada por mim, já que entre caixas de papelão e papel bolha, ela me fez companhia durante os tumultuados dias da mudança.
Ao meu ver começou bem, tem personagens fortes e atores consagrados, além de uma história que sabe integrar todos os núcleos, desde os ricos aos pobres, dos sérios aos comédia e dos principais aos coadjuvantes.
Tudo estava parcialmente lindo até o momento em que vi a personagem Perséfone da atriz Fabiana Karla: a típica gorda desengonçada que não pega ninguém e ainda por cima é virgem.

Confesso que fico com sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo que acho ridículo escritores insistirem em clichês vergonhosos que só servem para fortalecer um conceito imbecil, acredito que o autor tem a chance de transformar esse clichê em algo motivador e instigante com uma reviravolta para a personagem.

Pessoas que têm a habilidade de criar histórias são capazes de nos mostrar um novo mundo com possibilidades ainda não exploradas.

Mas vamos por partes...
A novela é quase um bem nacional, mesmo existindo em outros países, o Brasil costuma parar tudo para assistir o último capítulo.
A novela dita moda, comportamento, tendências e não é difícil escutar bordões consagrados por personagens caindo na boca do povão.
Você pode até odiá-la, só que negar sua fama é impossível.

Esse tipo de entretenimento segue um modelo e tenta criar uma realidade parecida com a nossa (para existir empatia). Normalmente o foco principal é o romance entre os mocinhos, que no decorrer da série se afastam, para no final casarem e viverem juntos e felizes para sempre.
É natural existir uma "escrita cômoda" em que os personagens não saem muito do padrão (comumente "politicamente correto").
Acredito que um dos maiores "choques" dos últimos tempos foi a personagem Nina vivida por Débora Falabella em Avenida Brasil (TV Globo) que buscava vingança e muitas vezes foi considerada uma "vilã" por parte dos telespectadores. O correto seria anti-herói/anti-heroína, uma personagem menos contos de fadas e corretinha, e mais real, palpável.

Avenida Brasil poderia ter sido um grande fiasco quando decidiu apostar em uma protagonista menos "santa", no entanto, o recebimento do público foi bom.
Acontece que mexer nessa fórmula batida que cansa muitos de nós, pode desmotivar o público fiel das novelas. Mexer no ibope é mexer com o dinheiro investido na produção. Sem retorno, todos os envolvidos sofrem as consequências, como por exemplo, um final antecipado.

Eu compreendo o trabalho dos autores de novela. Às vezes não é por falta de querer mudar, e sim, pela resistência que o público apresenta.
Talvez se tivéssemos uma novela com personagens de personalidades bem diferentes, que agregassem um valor intelectual maior, a esmagadora parte dos telespectadores a abandonaria.
Esta não é apenas uma questão de gosto, mas também de criação, educação e de princípios recebidos pela família.

Vamos falar de Hades... Digo, Perséfone!
Não é a primeira vez que temos uma atriz que normalmente faz comédia, participando de uma novela. Gosto quando existe essa mistura, acho que esses artistas tornam as produções mais leves.

Fabiana Karla pegou uma personagem complicada. Apesar da visível piada pronta é preciso olhar um pouco mais fundo.
A nossa sociedade prega que a beleza é ser magra, descolada e pronta para se dar sem pensar muito. O problema é que nem todas as mulheres do mundo estão dentro desses padrões e isso já causa uma bela diminuição na autoestima.
Ainda falando sobre os padrões da nossa sociedade, a virgindade é vista como uma coisa inútil que deveria sumir na adolescência ou começo da juventude (no máximo).

Nobres leitores, vou contar uma verdade dolorosa a vocês: as meninas mais gordinhas costumam ser tímidas, principalmente por terem vergonha de ser/estar acima do peso. Como chegar naquele cara bonitão da classe sem se tornar depois a piada da escola? Como usar aquelas roupas lindas das revistas se você não cabe nelas?
A obesidade nem sempre é falta de vergonha do obeso em se entupir de comida. Pode ser ansiedade, problemas de saúde, psicológicos... As pessoas não entendem isso e preferem julgar. Sejamos sinceros, é mais fácil rir de um gordo do que pensar nos seus próprios defeitos e aceitá-los. O sadismo é um mal humano.

Se a gordinha não for muito orgulhosa pode dar a sorte de encontrar alguém que faça o sacrifício e tope ficar com ela. Soei cruel? Eu apenas "bati a real". Ou você acha que uma Perséfone seria facilmente pega por um Dr. Michel (Caio Castro) da vida?

Mesmo com o crescimento da moda plus-size e do chega pra lá que as modelos e outras mulheres estão dando na sociedade, ainda é mais fácil ver o bonitão com a magrela. Não dá para ser hipócrita, essa ainda é a realidade.

Se a timidez (que nem existe mais na alegre enfermeira) e o corpo mais cheio já são grandes problemas, o que dizer de virgindade após os 20~25 anos?
A Perséfone é uma bomba de riso para as pessoas comuns e menos sensíveis.

"Po, além de gorda é virgem!"
"E você queria o quê? Quem é que vai querer comer aquela baleia?"

Esses são comentários nada incomuns que vira e mexe aparecem. Não é agradável escutá-los e é menos agradável quando você é motivo deles, não concorda? A não ser que você seja masoquista, ninguém gosta de ser humilhado.

E a virgindade da pobre personagem é uma piada até entre os amigos.
No capítulo do dia 30/07, Patrícia (Maria Casadevall) e Michel resolveram pagar para um garoto de programa tirar a virgindade de Perséfone, o que não aconteceu novamente (a quantidade de falhas que ela acumula é maior do que os meus erros de português).
O "problema", o que para mim soa como parte da solução, é que a enfermeira percebeu que um tão assunto sério e delicado se tornou brincadeira na boca dos outros, o que a deixou bastante irritada.

Eu estava esperando por esse momento e gostaria sinceramente de não dar com os burros n'água.
Queria ver uma personagem menos preocupada com a virgindade, mais natural, menos desesperada e que se desse mais ao respeito. E quando eu falo de respeito é entender que o corpo dela não é uma coisa que tem que ser jogada de um lado para o outro como uma bola de vôlei, que ela merece ser feliz, admirada e desejada, só que para isso acontecer ela tem que se tratar melhor, se amar primeiro e se achar especial.
Não é porque uma mulher é gorda que ela tem que facilitar para o primeiro que aparecer ou senão vai ficar encalhada pelo resto da vida. Não! Você tem que se achar única, incrível, linda! Você tem que brilhar para atrair as pessoas, tem que ser mais segura e madura.

"Meu doce"...
Eu continuarei acompanhando Amor à Vida, aliás, ela é o marco de quando mudei de casa... E como essa mudança vai ficar marcada... Como eu odeio mudar de casa!!!
Além disso... Eu adoro o Félix (Mateus Solano) e seu veneno que corrói até diamante. Eu me rendi aos encantos daquela criatura abominável. #rindo
A verdade é que os vilões são mais divertidos... Desculpa, sociedade.

Sim, eu fui dura e fria, nada que fuja dos padrões dos posts polêmicos, aliás... Mais um post polêmico.
Ah, esse vermelho do blog... Nunca fez tanto sentido.

Por Kimono Vermelho (31/07/2013)

2 comentários:

  1. Saudações


    Necessário aqui enfatizar um escopo da sociedade atual, porém transpassada pelas gerações, que está no chamado [rótulo pessoal]. Em outras palavras, o físico da pessoa, totalmente independente daquilo que traja por sobre o corpo.

    Não sigo novelas atualmente, entretanto o fazia quando eu era mais moço (até meados de 1995) e, após ler o seu post, posso arriscar assegurar-te que o dito em suas palavras não mudou quase nada desde a época por mim citada, Red Kim.

    Interessante a justa ponderação enfatizada em seu texto. Acredito também que a emissora (ou num conjunto destas) procura dar ao público aquilo que ele deseja, que ele quer (ao menos, em maioria deste). Entretanto, pode ser que ocorra em algum momento uma mudança comportamental, independente da motivação da mesma, que possa fazer com que tais ideias também passem por uma sistemática modificação. Claro que isto é apenas um devaneio de minha parte, uma concepção até "abstrata" ou "surreal" em algum ponto, mas não deixa de ser uma hipótese.

    A questão social é forte mesmo. As pessoas que não possuem o escopo que a conjuntura atual define como "a mais correta" passam pelas situações por ti descritas em amplitude, Red Kim. E sim, para piorar, tais pessoas não se esforçam em melhorar um pouco as próprias aparências (corte de cabelo aqui, uma roupa nova ali, entre outras coisas), o que eleva o problema,

    Por isto acredito também que, antes de mais nada, se gostar é mais do que necessário. Julgo (posso estar errado, entretanto) ser impossível uma pessoa poder dizer que ama um semelhante sem, no mínimo, se apreciar e se valorizar. E nem precisa ser no caso de amor propriamente dito, pois acho muito estranho se elogiar alguém ao mesmo tempo em que se pratica um auto-demérito, por exemplo.

    Realmente, parece que o público tem aquilo que quer. O que fazer, enfaticamente, para que isso mude gira muitas roletas e pode causar muitas reviravoltas na sociedade. Mas, como já frisei, pode ser que um dia ocorra.

    Bom post, nobre Red Kim.


    Até mais!

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  2. Interessante o assunto, é uma questão muito particular, mas como vc falou a novela é sim um meio muito grande de influenciação.

    Bjus.
    José Agenor
    Blog: http://www.blogdojoseagenor.com.br/
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