sexta-feira, 19 de abril de 2013

Diários de Uma Escritora - 16

Agora a coisa vai ficar séria.
Vamos botar os escritores na berlinda e descobrir qual dos três tipos cada um pode se encaixar. Não se preocupe, para tudo dá-se um jeito, até mesmo para as suas dificuldades atuais.

Diários de Uma Escritora 16 - Descrição X Personagem X Dificuldades

Eu sei, até parece que estou imitando os títulos de HunterXHunter (Yoshihiro Togashi) desde o Diários 15, mas não tem como não usar as palavras-chaves para explicar a essência do post.

Há escritores que são ótimos em descrever cenários, situações e pessoas, só que pecam por não conseguirem criar personagens críveis, profundos e carismáticos. Outros, porém, são excelentes em criar personagens tornando-os tão reais que poderíamos tirá-los do papel e jogar no nosso mundo sem problema, enquanto pecam por descrições muito rasas ou deficientes.
E há os que conseguem equilibrar as duas opções.
Lembrando que independente do tipo que você for, isso não quer dizer que seus textos são ruins e que você deve correr IMEDIATAMENTE para se tornar o tipo "equilibrado". É preciso entender que algumas deficiências devem ser corrigidas, no entanto, é preciso compreender como você "funciona".


Se você é escritor ou se considera um, precisa ter em mente um conceito de extrema importância: você é quem você é. Sim, é bom se especializar, é bom querer se tornar um profissional melhor, só que você não pode perder a identidade.
Alguns almejando um caminho mais rápido, ou ignorando seus próprios conceitos, começam a se encher de material de leitura com dicas disso, dicas daquilo e se tornam mecanizados.
Disciplina não é saber e dominar todas as regras básicas e essenciais, disciplina é se focar no que está fazendo.

Até parece que esquecem o tipo de poder que vocês têm na mão.
Se priorizar as descrições ao invés dos personagens não te incomoda, por que você deveria mudar? Por que não aprende a criar um outro estilo de escrita, como por exemplo falar de viagens, arquitetura, etc, tornando os personagens em "coadjuvantes"?
O escritor é uma criatura versátil, ele cria seu "mundo", seus padrões e inova o mundo em que vivemos.
É claro que nem sempre o público está preparado para algo tão genial e especial, contudo, quem sabe cativar, cativa em qualquer lugar.

Agora se te incomoda essa "deficiência", procure aprender a agregar mais conhecimento naquilo que tem dificuldade. Estude mais sobre e treine em seus textos.
Ser escritor não é escrever todo dia uma linha se você não tem vontade. Ser escritor é fazer com que as palavras fluam sem amarras e se tornem lindos textos com a sua administração.
Pessoal tem o péssimo costume de se encher de teorias e perder os pequenos dons que rodeiam o maior. Se forçam porque "é isso que os escritores de verdade fazem". Escritores de verdade escrevem histórias que emocionam pessoas, independente de serem PhD em descrição ou não.
Parem de se cobrar da maneira errada. Sigam mais os seus instintos e menos o que os "manuais" dizem. É preciso ser livre para poder criar.

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"Kimono, eu sinto dificuldade em criar personagens e quero, pela minha vontade, melhorar isso"
Certo, agora estamos falando a mesma língua.
As dicas que eu vou dar aqui são básicas das básicas, porém, que nem sempre notamos ou temos coragem de perguntar aos outros.

-Faço ótimas descrições, mas sou péssimo com personagens
Muito bem. Personagens são as pessoas que passam pela sua história. Como treino, comece a observar as pessoas ao seu redor, seu pai, sua mãe, seu tio, sua avó, seus irmãos, não importa quem você vai escolher, apenas escolha.
Já tendo o seu modelo em mente, note o comportamento dele, o jeito que fala, como age se está com raiva, se é malandro, bom amigo, se tem algum segredo que não quer que saibam, se é uma pessoa muito emotiva... É com a observação que você começa a entender o "funcionamento" de uma pessoa e pode posteriormente se desvincular daquele exemplo para criar o seu personagem. Quando se tem um "banco de dados" mental de comportamentos, você fica livre para juntar e misturar o quanto quiser, trazendo ao mundo um personagem totalmente seu.

-Sou ótimo com personagens, mas minhas descrições são horríveis
Calma, não é o fim do mundo.
Pegue um vaso, seja um de verdade ou uma foto pela internet, e descreva-o. Qual o tamanho dele? De que material é feito? Qual a cor? Ele parece oriental? Foi feito por algum artista plástico? O que colocam dentro dele? Quem comprou ou deu?
Exemplo: Em uma mesa esguia com um tampão de madeira redondo, ficava o belíssimo vaso vermelho que minha tia ganhou no Natal retrasado. Era revestido com vidro e tinha um peso considerável. Eu nunca a vi colocar nenhuma flor nele, talvez tivesse ciúmes do aroma e beleza delas dentro daquele vaso. Tinha sido feito por um artista plástico da cidade que costumava esculpir um acabamento delicado na borda da obra de arte, como se uma flor estivesse com suas pétalas abertas, de pontas arredondadas e graciosas. Media, pelo menos, uns trinta centímetros, já que uma vez minha prima Luiza conseguiu colocar sua boneca lá dentro. Nem preciso dizer o quanto minha tia ficou irritada, né?
Depois do vaso, passe para frutas, pessoas e assim por diante. Além da conhecida dica da observação, algumas pesquisas mais detalhadas podem ajudar bastante. Exemplo: conhecer os nomes das coisas (batente de porta, rodapé), conhecer as cores (verde bandeira, vermelho/rosa coral), conhecer as texturas (pelo macio, lixa áspera).

-Não sei fazer descrições e tenho dificuldade em criar personagens
É sempre bom saber se você tem jeito para a coisa ou se precisa começar a pensar em outras atividades em que possa se dar melhor.
De qualquer forma, basta juntar as dicas anteriores e treinar bastante.

Outra coisa importante é sempre mudar o seu estilo.
Eu, por exemplo, tenho o costume - que de vez em quando acho terrível - de só escrever o nome dos personagens na narração quando algum personagem chamar o outro pelo nome, isso pode se tornar bem complicado quando você têm vários homens ou várias mulheres. Ajuda a aprender a se virar com os sinônimos, mas eu sei que pode tornar o texto cansativo ou confuso para o leitor, aí é preciso ter a atenção dele e dar as dicas certas para diferenciar um de outro. Não recomendo, só que é algo próprio do meu estilo, de manter um tom de mistério (ou até mesmo de brincar de confundir o leitor).
Em outros textos eu procuro dar os nomes de cara e em outras tantas misturo um pouco dos dois.
Às vezes começo com longas descrições, em outras com diálogo direto.

É isso que faz o escritor ser tão brilhante, o seu dom de versatilidade, criatividade e genialidade.
Pense agora: você tem um estilo único, tem um estilo principal e gosta de mudar às vezes ou cada texto seu é uma surpresa para o leitor?

E lembre-se: as dicas que eu dou podem funcionar ou não com você. Não é porque estou escrevendo-as que são pedaços importantes de um grande manual. Se conheça e aprenda a perceber o que vale à pena e o que não vale para você. Nunca se esqueça disso!

Desafio do conto: como está?
E aí, pessoal? Estive ocupada esses dias com o Kimono Amarelo e suas dorgas, então abandonei o Kimono Vermelho ao deus dará. E falando nisso, era para este mês ter um novo desafio do conto e o resultado do Desafio de Janeiro de 2013, certo?
Como vocês sabem eu sou brasileira. Brasileiro deixa tudo para última hora. Eu passei todos esses meses sem ideia de como desenvolver a ideia que eu já tinha, então cá estou eu correndo para escrever o conto-resultado e pensando se é uma boa começar o desafio do conto ainda este mês ou jogar para Maio. Eu vivo em uma corda bamba com facas afiadas embaixo.
Vou tentar cumprir os prazos, porém, não prometo nada.

Nos vemos no próximo mês... No mês das mães noivas.

Por Kimono Vermelho (19/04/2013)


2 comentários:

  1. Excelente post, kim! Como sempre, texto conciso e coerente, explicando bem! As dicas são realmente muito boas, e acredito que cada um deva se conhecer, e conhecer seu próprio estilo e como GOSTA de escrever, pois isso é, pra mim, o mais importante.

    Pra isso, recomendo ler seus diários daqui do blog, pois são posts fantásticos! É difícil conseguir fazer algo para ajudar escritores, mas você deu conta desta façanha!

    Acho meio complicada a parte da observação de pessoas. Consigo escrever personagens bem (ou pelo menos creio e me dizem que sim), mas acho a tarefa de observar padrões, pessoas, comportamentos e etc extremamente difícil. Porém se bem executada, chega ao ponto que você consegue prever algumas ações das pessoas, o que acaba sendo divertido em alguns casos.

    Outro problema recorrente aos escritores são as ideias que vem, mas que não são concluídas por serem inspirações momentaneas, mas se não me engano já falaste disso em um dos posts.

    No mais, digo que foi um ótimo post, e bem útil. Parabéns e obrigado por ajudar a nós escritores, Kim. Como eu sempre te digo no twitter, gosto MUITO do seu estilo de escrita e te acho uma pessoa fantástica!

    ~Leon (@Nachozcaoticus)

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  2. Saudações


    Hum...
    Com todas estas dicas apresentadas, posso presumir que a valia delas é imensa, Red Kim. O enquadramento parece ser justo, e as ramificações possíveis são imensas.

    Tentei, pela primeira vez, participar do NaNoWriMo, em novembro passado. Não obtive êxito, pois a minha novel não saiu das 12.600 palavras (e o evento exigia um mínimo de 50 mil delas). Talvez tenha faltado tempo, profundidade e alguma caracterização mais sólida, mediante o tema que procurei trabalhar.

    Aliás, foi um bom grupo que participou do NaNoWriMo (você, talvez, até venha a imaginar ao menos um nome, tenho quase certeza disto).

    Contudo, o seu parágrafo de seu post, antes da mensagem para o conto do [Desafio de Janeiro'2013], dá a conotação que eu esperava ver aqui. Você escreveu sobre as ideias para uma escrita, deu as dicas, mas não significa que todas elas valham para todos os casos. É algo muito diverso e variável. Não se pode conotar com uma única expressão que tudo é certo ou que tudo seja errado. Cada um definirá o que levar adiante, para o seu propósito (da pessoa).

    Bom post, Red Kim.


    Até mais!

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