sexta-feira, 15 de março de 2013

Tirando a venda dos olhos

Como eu disse no meu último post polêmico que falava sobre feminismo: "Eu não consigo me manter longe das polêmicas e talvez eu não deva mais fugir delas."

Para algumas situações é de bom tom ou de melhor escolha, não se manifestar e eu concordo. No entanto, há situações que não podem ser ignoradas e que, caso forem, estarão se aproveitando da nossa omissão como consentimento, ou seja, estaremos de acordo só por termos ficado calados.
Eu aprendi que omissão em casos como esse podem se tornar graves problemas futuros, então... Melhor perder os amigos do que perder a personalidade.
Sentenças
As últimas semanas foram de julgamentos, seja do caso Gil Rugai ou do ex-goleiro Bruno Fernandes, ambas com a condenação dos réus.
Na segunda feira desta semana, dia 11/03, começou o julgamento de Mizael Bispo acusado de ter matado a advogada Mércia Nakashima em maio de 2010. Na verdade, chamam de júri e não de julgamento, pois não é o juiz que escolhe a sentença do réu e sim um júri composto por cidadãos comuns de ambos os sexos. Para diferenciar no post o acontecimento do grupo que sentenciará o acusado, chamarei de julgamento.

Cheguei a comentar no post O que você quer ser quando crescer? que queria ser advogada. Apesar de dizer que não tenho vocação, é uma área que me fascina e que nunca vou deixar de admirar. "Nunca" parece uma palavra usada incorretamente, porém com os acontecimentos recentes, ela tem se mostrado perfeita.


Decisão curiosa
E bota curiosa nisso!
O juiz Leandro Cano, que preside o julgamento de Mizael Bispo, tomou uma decisão histórica e bastante interessante: o público poderia acompanhar as sessões ao vivo, seja pela televisão ou pela internet. SIM, UM JULGAMENTO SENDO TRANSMITIDO AO VIVO!

Se nem todos sabem, esse tipo de evento não é livre, ou seja, não basta simplesmente chegar em um fórum e dizer: "Ei, quero ver um julgamento aí". Então essa foi uma ótima oportunidade para que o povo conheça o nosso sistema de júri e de como um julgamento desse tipo é conduzido. Lembrando que nem tudo que acontece nas séries e filmes dos Estados Unidos condiz com a realidade, além de ter algumas diferenças entre os países com suas legislações e "modus operandi".

Eu adoro detalhes técnicos como perícia e etc, além de perceber quando a testemunha está ou não sendo constrangida pelos advogados.
É um ótimo entretenimento inteligente.

As ironias e sarcasmos trocados pelos promotores e pela defensoria do réu são pérolas à parte, além de alguns momentos sofistas visíveis, como a tentativa de emocionar o júri ou pelo menos deixá-lo com o coração mais brando, contando uma história pessoal.

Só sei que não dá para esquecer algumas frases...
  • "O senhor [advogado Rodrigo Merli] não aguenta nem meia volta na porca!" (Defensor - Dr. Ivon Ribeiro)
  • "O diabo é o pai da mentira. O senhor [advogado Ivon Ribeiro] é amigo do diabo!" (Promotor - Dr. Rodrigo Merli Nunes)
  • O Dr. Ivon Ribeiro perguntou se o Dr. Rodrigo Merli tinha assistido o filme O Auto da Compadecida (2000 - Guel Arraes) e visto quem era a acusação na história. O promotor respondeu: "Não, eu devia estar trabalhando para colocar assassino na cadeia."
  • "O senhor [advogado Ivon Ribeiro] está dizendo que só esqueço do que me interessa. O senhor está me ofendendo." (Testemunha - Dr. Arles Gonçalves)
  • "Eu faço parte da Ordem dos Advogados do Brasil e não da Desordem dos Advogados do Brasil." (Testemunha - Dr. Arles Gonçalves)
  • "Julguem pelo coração. Porque o coração da gente leva para o caminho certo." (Defensor - Dr. Samir Haddad Jr.)
  • "Não julguem com a lógica." (Defensor - Dr. Ivon Ribeiro)
  • "Você [réu Mizael Bispo] também pode ser chamado de Tiradentes, porque todo mundo queria a sua cabeça." (Defensor - Dr. Ivon Ribeiro)
  • "Um homem gostar de uma mulher virou problema nesse país." (Defensor - Dr. Ivon Ribeiro)
  • "Parabéns, doutor. O senhor [advogado Ivon Ribeiro] é meu ídolo." (Promotor - Dr. Rodrigo Merli Nunes)
Sem esquecer que o delegado Antônio de Olim (que cuidou do caso Mércia Nakashima) foi chamado de "fanfarrão" pelo defensor Ivon Ribeiro, ainda teve uma história de medição com régua pequena, risos, vetos do juiz, ironias e...
Não acompanhei todos os comentários pelas redes sociais, no entanto, achei que a defensoria estava dando o ar de sua graça. Até porque os Três Patetas (originalmente The Three Stooges, da Comedy III Productions, Inc.) eram bem mais divertidos e não trabalhavam advogando.

O fato é que senti o julgamento truncado, pois a defensoria costumava se enrolar, confundir e até chegou a dizer que um dos autos tinha sido "sequestrado". Depois que procurou com um pouco mais de calma, o achou.
Não sei qual tipo estratégia quiseram passar, mas aquilo estava mais sem pé e sem cabeça que LOST (Jeffrey Lieber, Damon Lindelof e J.J. Abrams).

O engraçado é que algumas pessoas acharam essa transmissão "desnecessária" ou "vergonhosa", e eu me pergunto por quê.
Sabe o que é vergonhoso e desnecessário? Continuar na ignorância por comodidade. Porque boa parte dessas pessoas que reclamaram assistem reality shows, comentam sobre e adoram saber as últimas fofocas dos participantes. Realmente, para alguém que acha esse tipo de "entretenimento" interessante, é claro que um julgamento é perda de tempo, desnecessário ser transmitido e que a Justiça desse país não serve para nada, blá blá blá infinito...
E claro que teve quem reclamou dos comentários sobre o julgamento, daí... Daí que eu quase cantei Cálice do Chico Buarque, só para dar aquela cutucada em quem adora reclamar de qualquer conversa com assunto sério e polêmico que está sendo comentado de forma mais irônica, sarcástica e divertida.

Voltando ao julgamento...
A sentença saiu ontem (14/03) no início da noite. O júri condenou o réu como culpado e a pena de Mizael Bispo foi de 20 anos de prisão com os 8 primeiros anos em regime fechado. Por já ter passado 1 ano preso, ele só ficará mais 7 anos no regime fechado.
Dentre os casos mais recentes de julgamento, o acusado deste foi o que pegou menor pena (Bruno ficou com 22 anos e 3 meses de reclusão, e Gil Rugai com 33 anos e 9 meses). Apesar de serem todos homicídios, eles têm suas diferenças, qualificadoras e agravantes, contudo, é tão hediondo quanto matar uma mulher que nem o corpo foi encontrado ou o pai e a madrasta.

Ao meu ver, todo homicídio deveria ter uma pena extremamente pesada, salvo quando praticado por uma vítima em legítima defesa.
Aprendemos com o julgamento de Mizael que a nossa legislação precisa mudar, começando pela Penal. Quem garante que todo e qualquer homicida, após cumprir sua pena, não irá matar novamente ou fazer algum mal a família da vítima? Por que não prisão perpétua?
Há muito a se discutir e o povo deveria pensar sobre isso, sobre a violência, sobre quem de fato corre perigo nesse país. Aos poucos é preciso mudar a cabeça para nos tornarmos um povo mais exigente, letrado e esperto, porque do jeito que está, é melhor nem prender bandido, é melhor prender o povo. Assim a gente fica seguro.

Também gostaria de lembrar de um detalhe sobre clientes e advogados, que eu acho que nem todo mundo pensa no primeiro momento: 
E, por favor, eu não estou citando isso para incriminar nenhum acusado neste post, apenas estou lembrando que pode acontecer em qualquer caso.
É claro que assumir autoria pode ser bom para tentar acordo, no entanto, se os defensores pintarem o réu como mártir, o júri acreditar, os promotores não fizerem um bom trabalho, a perícia falhar e o juiz for convencido pelo que vê, há maior chance de vitória para a defensoria. É o famoso "e se tudo mais falhar". Se bem que já houve casos em que pessoas que tinham cometido tal crime foram inocentadas, bem como o contrário com inocentes (que é um pouco mais comum).
Lembrem-se: nem tudo é certo na vida, além da morte. Todos esperavam por um Papa brasileiro e agora temos um argentino. Todos acreditavam que em 2006 seríamos hexacampeões na Copa do Mundo e não fomos.
Se há possibilidade de acerto, também há possibilidade de erro. Não se esqueçam disso.

E agora para alegrar um pouco mais o post, porque esse é o meu jeito Blogger, alguns tweets...

Faltou energia no fórum dia 12/03 e eu escutei uma conversa entre o juiz Leandro Cano e alguém que não pude identificar. O juiz avisou que o prédio tinha gerador e quando olhou para a televisão que mostrava a gravação, notou que ela estava desligada e perguntou:
Minhas considerações pessoais sobre o juiz Leandro Cano:
E por fim... Alguém que será despedido, ou melhor, já deve ter sido:
Bem, desejo um ótimo final de semana para vocês.
É, é só isso que eu tenho a dizer... Além de rezar para que o citado no penúltimo tweet nunca descubra que eu o chamei de "fofo", porque minhas bochechas coram facilmente.
Ah, sim... Mulheres, eu sei que ficaram interessadas no juiz Leandro Cano e no promotor Rodrigo Merli, só que, de acordo com as imagens das mãos esquerdas durante a transmissão ao vivo, ambos são casados (lindas alianças douradas).

Até uma próxima polêmica!

Por Kimono Vermelho (15/03/2013)

2 comentários:

  1. Saudações


    Para que a população brasileira tenha um acesso maior a acontecimentos como o temático deste post, é necessário que a ênfase para o mesmo seja dada com propriedade. Geralmente, as pessoas só caem "de colo" naquilo que as mantém na odiosa [zona de conforto] (o próprio BBB é um exemplo claro disto) e tentar algo diferente, neste ponto, é deveras "trabalhoso" para as mesmas.
    Um fato à se pensar. Mas por que não tentar, certo!?

    Não acompanhei ao julgamento, em razão do trabalho. Mas li os seus tweets sobre o mesmo mais tarde, Red Kim. Partindo de tal fato (tanto da citada rede social como no trabalho exposto neste post)posso enfatizar que achei tudo bem interessante. Não vou me prender à sentença final ou a outros detalhes, mas no escopo geral parece que tal transmissão teve, realmente, muito á ensinar para todos sobre o que é, na verdade, um júri (e uma ação de julgamento em si).

    Ótimo post, Red Kim.


    Até mais!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu concordo com você e espero ansiosamente por novas oportunidades do Brasil mostrar ao seu povo que o conhecimento está bem ali, basta corrermos atrás dele.

      Excluir

Antes de comentar conheça as nossas regrinhas:
-Não poste nada ofensivo, respeite os outros;
-Não brigue, aqui não é ringue de boxe;
-Não faça merchandising do seu blog com a desculpa de "ah, mas eu comentei sobre o post também".
Siga as regras e você não conhecerá o lado escroto da Kimono.